Luiza Neto Jorge 

Luiza Neto Jorge 

A Magnólia
A exaltação do mínimo,

e o magnifico relâmpago

do acontecimento mestre

restituem a forma

o meu resplendor.
 

Um diminuto berço me recolhe

onde a palavra se elide

na matéria — na metáfora —

necessária, e leve, a cada um

onde se ecoa e resvala.
A magnólia,
o som que se desenvolve nela

quando pronunciada,

é um exaltado aroma

perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico

desfolhando relâmpagos

sobre mim.
 
Transcrito de Luiza Neto Jorge, poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001.

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Morte do Leiteiro Carlos Drummond de Andrade

Morte do Leiteiro Carlos Drummond de Andrade

Morte do Leiteiro
Carlos Drummond de Andrade
Há pouco leite no país,

é preciso entregá-lo cedo.

Há muita sede no país,

é preciso entregá-lo cedo.

Há no país uma legenda,

que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro

de madrugada com sua lata

sai correndo e distribuindo

leite bom para gente ruim.

Sua lata, suas garrafas

e seus sapatos de borracha

vão dizendo aos homens no sono

que alguém acordou cedinho

e veio do último subúrbio

trazer o leite mais frio

e mais alvo da melhor vaca

para todos criarem força

na luta brava da cidade.
Na mão a garrafa branca

não tem tempo de dizer

as coisas que lhe atribuo

nem o moço leiteiro ignaro,

morador na Rua Namur,

empregado no entreposto,

com 21 anos de idade,

sabe lá o que seja impulso

de humana compreensão.

E já que tem pressa, o corpo

vai deixando à beira das casas

uma apenas mercadoria.
E como a porta dos fundos

também escondesse gente

que aspira ao pouco de leite

disponível em nosso tempo,

avancemos por esse beco,

peguemos o corredor,

depositemos o litro…

Sem fazer barulho, é claro,

que barulho nada resolve.
Meu leiteiro tão sutil

de passo maneiro e leve,

antes desliza que marcha.

É certo que algum rumor

sempre se faz: passo errado,

vaso de flor no caminho,

cão latindo por princípio,

ou um gato quizilento.

E há sempre um senhor que acorda,

resmunga e torna a dormir.
Mas este acordou em pânico

(ladrões infestam o bairro),

não quis saber de mais nada.

O revólver da gaveta

saltou para sua mão.

Ladrão? se pega com tiro.

Os tiros na madrugada

liquidaram meu leiteiro.

Se era noivo, se era virgem,

se era alegre, se era bom,

não sei,

é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono

de todo, e foge pra rua.

Meu Deus, matei um inocente.

Bala que mata gatuno

também serve pra furtar

a vida de nosso irmão.

Quem quiser que chame médico,

polícia não bota a mão

neste filho de meu pai.

Está salva a propriedade.

A noite geral prossegue,  a manhã custa a chegar,

mas o leiteiro

estatelado, ao relento,

perdeu a pressa que tinha.
Da garrafa estilhaçada,

no ladrilho já sereno

escorre uma coisa espessa

que é leite, sangue… não sei.

Por entre objetos confusos,

mal redimidos da noite,

duas cores se procuram,

suavemente se tocam,

amorosamente se enlaçam,

formando um terceiro tom

a que chamamos aurora.

Eugénio de Andrade 

Eugénio de Andrade 

A solidão não é forçosamente negativa, pelo contrário, até me parece um privilégio. Talvez a minha solidão seja excessiva, mas eu detestei sempre as coisas mundanas. Estar com as pessoas apenas para gastar as horas é-me insuportável.

(…)
Eugénio de Andrade
Fotografia:Hiromu Kira, The Thinker (1930)

Ferreira Gullar 

Ferreira Gullar 

Cantiga para não morrer
Quando você for se embora,

moça branca como a neve,

me leve. 
Se acaso você não possa

me carregar pela mão,

menina branca de neve,

me leve no coração. 
Se no coração não possa

por acaso me levar,

moça de sonho e de neve,

me leve no seu lembrar. 
E se aí também não possa

por tanta coisa que leve

já viva em seu pensamento,

menina branca de neve,

me leve no esquecimento.
Ferreira Gullar

Pastelaria de Mário Cesariny 

Pastelaria de Mário Cesariny 

Pastelaria
Afinal o que importa não é a literatura nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que

importa não é bem o negócio

nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que

importa não é ser novo e galante

– ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que

importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não

é verdade rapaz? E amanhã há bola

antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal

o que importa não é haver gente com fome

porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal

o que importa é não ter medo

de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:

Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal

o que importa é pôr ao alto a gola do peludo

à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora!

– rir de tudo

No riso admirável

de quem sabe e gosta

ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.