Heliocêntrico (Mão Morta -7 Gumes)

Heliocêntrico (Mão Morta -7 Gumes)

Fábulas

Imagens que agarro quando há uma suspensão do tempo cronológico e a percepção passa para uma realidade paralela. Fragmentos de existência onde uma peça de roupa ao vento consegue ser tão ou mais bela que uma bailarina clássica.

Com este Video queria agraciar a belíssima paranóia dos “Mão Morta”

– Ouviste o que disse o aquecedor?
– Como?
– Repara na luz. Repara como muda de intensidade… Está a dizer qualquer coisa!
– Mas isso é um aquecedor, não fala!!!
– Shut!… Não ouves o murmúrio?… Está a dizer qualquer coisa!
– Mas isso é o barulho da electricidade a passar…
– Shut!… Escuta!…
– Deixa-te de tretas. Vamos embora!
– Não posso.
– Não podes?!?…
– Tenho de ficar ao pé da luz. Está a querer dizer-me qualquer coisa! É importante!…
– Importante?!? Ainda acabas é na Casa Amarela a apanhar choques eléctricos…
– Pois eu acho que há aqui uma entidade qualquer, um ser de outra dimensão, uma energia cósmica, a tentar estabelecer contacto comigo… Repara no cintilar, nas pequeninas explosões de luz… Isto não é electricidade!
– Não!… Isso não é electricidade… São miolos a fritar!
– O quê?
– Disse que tens os miolos a fritar. Deve ser do calor…
– Por acaso estou cheio de frio!… Não queres ligar o aquecedor?
– Mas tens o aquecedor no máximo! Nem sei como não te queimas, aí tão perto…
– Shut!… Escuta!…
– Bom, vou-me embora! Depois conta-me o que te disse o ET…

Subscreva no Facebook: Fábulas  e Esquiziofrenia das Artes

MÃO MORTA 

MÃO MORTA 

Mão Morta
Tu disseste “quero saborear o infinito”

Eu disse “a frescura das maçãs matinais revela-nos

segredos insondáveis”

Tu disseste “sentir a aragem que balança os

dependurados”

Eu disse “é o medo o que nos vem acariciar”

Tu disseste “eu também já tive medo. muito medo.

recusava-me a abrir a janela, a transpôr o limiar da

porta”

Eu disse “acabamos a gostar do medo, do arrepio que

nos suspende a fala”

Tu disseste “um dia fiquei sem nada. um mundo inteiro

por descobrir”

Eu disse “…”
Eu disse “o que é que isso interessa?”

Tu disseste “…nada”
Tu disseste “agora procuro o desígnio da vida. às

vezes penso encontrá-lo num bater de asas, num

murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon.

escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo.

depois queimo tudo e prossigo a minha busca”

Eu disse “eu não faço nada. fico horas a olhar para

uma mancha na parede”

Tu disseste “e nunca sentiste a mancha a alastrar, as

suas formas num palpitar quase imperceptível?”

Eu disse “não. a mancha continua no mesmo sítio, eu

continuo a olhar para ela e não se passa nada”

Tu disseste “e no entanto a mancha alastra e toma

conta de ti. liberta-te do corpo. tu é que não vês”

Eu disse “o que é que isso interessa?”

Tu disseste “…nada”
Eu disse “o que é que isso interessa?”

Tu disseste “…nada”